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Saturday, October 15, 2005

Relacionamentos efêmeros

A contemporaneidade que se vive não poderia encontrar uma melhor definição do que o tempo do efêmero, do volátil. Tudo – ou praticamente tudo – perde as antigas amarras que tanto regeram a sociedade moderna.
Com o advento do que Jameson chamou de Capitalismo Tardio vê-se uma total penetração do capitalismo na mente e no cotidiano das pessoas, tendo portanto conseqüências psíquicas.
Uma das mais importantes seria o desenvolvimento tecnológico, que deixou de priorizar o tamanho, o peso e o volume para entrar na escala micro; ao passo que o trabalho humano é paulatinamente substituído pelo trabalho da máquina. Segundo Anthony Giddens, “a confiança em sistemas abstratos contribui para a confiabilidade da segurança cotidiana, mas por sua própria natureza ela não pode fornecer nem a mutualidade nem a intimidade que as relações de confiança oferecem” (pág 117, As conseqüências da modernidade). Mas gostaria de me opor ao que ele falou ser a causa de um maior auto-conhecimento.
Como a vida pessoal se organizou em torno do Estado de Direito, que é burocrático por excelência, a esfera privada perde o significado transcendente baseado em laços comunitários. A partir desde acontecimento as relações acontecem baseadas em sentimentos que convergem para a subjetividade, mas ao contrário do que Giddens avalia ser uma abertura para a auto-revelação, gostaria de pensar como ele mesmo diz, paradoxalmente, ser uma relação que prima pela estabilidade emocional.
Manuais de metodologia sociológica alertam para o fato de se recorrer a pesquisas, pelo fato de que o entrevistado responde o que quer, e não o que realmente acontece. Em relações regidas pela estabilidade emotiva, pouco importa a verdade – se é que ela existe de fato.
O século XIX assistiu a cientistas como Lombroso procurarem fazer a descrição de um degenerado, uma vez que a própria genética traria os genes. Hoje o século XXI não vê essas idéias com bons olhos o que de alguma forma não permite uma identificação do meliante; por outro lado a questão do preconceito fortemente combatida na legislação não permite a separação de tais alvos da eugenia antiga.
Jean Delumeau, no seu livro História do Medo no Ocidente 1300 – 1800, mostra que a insegurança medieval recebia um remédio comunitário: muros, com fossos e fiscalização. Mas, mesmo esses muros traziam consigo uma idéia de comunidade, pois toda a cidade estava junta, cercada por um muro comum. Se contra os saqueadores muros eram construídos pela cidade, agora o indivíduo constrói ao redor da sua casa seu muro, mas não se utiliza de meros fossos, usa cercas elétricas, vigilantes com armas e outros apetrechos.
Considerando-se que prédios são igualmente muralhas coletivas, de todo modo são totalmente distintos da aldeia medieval. Aqui nem sempre uns sabem quem são os outros, e se as pessoas possuíam medo de fazer algo por ser delatado pelos vizinhos, com a questão da individualidade isto deixa de existir. “O encontro de estranhos é um evento sem passado” e “é também um evento sem futuro” (bauman pág 111). Isto significa que são encontros pontuais que raramente se convertem em algo mais profundo.
O sexo poderia ser o aspecto menos afetado, mas não o é. Este como Michel de Foucault demonstrou na série de livros de História da Sexualidade é carregado por uma série de atributos políticos. Acriança medieval não existia, era um mero adulto incompleto, igualmente como na Grécia antiga. A Modernidade descobriu a criança como uma ameaça, a masturbação infantil era algo abominável. Os pais deveriam combater isto, bem como a escola. Se as crianças mereciam um cuidado especial, o sexo deveria ser totalmente abolido de suas vidas.
O mesmo se tem a falar sobre o sexo heterossexual monogâmico. O século XVIII articulou à sua volta as outras sexualidades, estudando-as criando discursos de verdade.
A pós-modernidade criou mecanismos diferenciados. Agora, como falou Zygmunt Bauman, a preocupação não é a sexualidade das crianças que têm o direito de descoberta do seu corpo, mas a sexualidade dos pais em relação a elas. Pedofilia é crime, a interferência dos pais nos filhos para atos ilegais soa totalmente aberrante perante a sociedade.
Em relação aos adultos a filtragem não se refere mais à monogamia heterossexual, mas a universalização das demais práticas sexuais. Um bom exemplo disto é que no Orkut, onde existem mais de 1000 comunidades de língua portuguesa com o nome “sexo”, e a que mais contém membros é a “Eu adoro SEXO”, com 199.388 pessoas. O sexo não mais se fechou em determinados locais para ser falado seguindo regras, pois ele é falado em todos os locais, desde programas de televisão até os pais e as novelas.
Fazer sexo, como no período que estamos vivemos, também obedece ao princípio do sexo entre estanhos, é um evento que pode ser pontual, e não linear. O que deve ser levado em conta não é o amor ou alianças familiares, mas a busca pelo prazer ao extremo. Como Jameson aponta, o capitalismo tardio conseguiu penetrar no pensamento das pessoas, fazendo com que elas olhassem para as outras como meros objetos de desejo, e igualmente como uma mercadoria, porém o desejo não encontra limites para a sua realização.
Quando se vê a liberalização do sexo, não se pode levar em conta uma utopia de “liberdade”. O poder moderno tinha um projeto de dominação, mas vinha no seu arcabouço uma reação inerente. Se eles isolavam e estudavam, forneciam meios de mobilização aos inferiorizados. A família nuclear sofria junto, igualmente o restante dos proletários; mas com a fragmentação da família nuclear a comunicação inter partis torna-se mais precária, juntamente com a sociedade como um todo. Se o indivíduo morreu, morreu com ele a capacidade de mobilização e por conseqüência a perspectiva utópica de mudança social. A modernidade sucumbiu, e levou consigo as utopias teleológicas.

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