Pós-modernismo
“Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa” 1
Traçar um paralelo da pós-modernidade sem incluir os episódios de 6 e 9 de agosto de 1945 torna-se superficial. A bomba atômica quando chegou a 384 metros de altura do solo japonês não conseguiu apenas dizimar grande parte das populações de Hiroshima e Nagasaki, mas também indagou a humanidade sobre o papel da ciência, pois esta foi quem desenvolveu a “rosa radioativa”. Ao contrário do que os iluministas imaginavam, a razão não estava em um papel libertador do homem, mas de dizimá-lo. Esta reflexão pode ser a semente da crise da razão pós-moderna.
Ao alvorecer de um tempo histórico se precede um tempo de incertezas e paradoxos que convivem entre si. Desta forma, como o Renascimento viu-se entremear em concepções humanísticas e religiosas, no tempo contemporâneo convivem aspectos aparentemente contraditórios. É o hedonismo, o ceticismo, a religiosidade que permeiam a mente do homem pós-moderno.
Assim, um primeiro aspecto primordial contemporâneo seria o que Jair Ferreira dos Santos chamou de “pós que contém um des”. É o sentido esvaziador, o sentido que quebra tabus, que denuncia injustiças, é o sentido líquido que Zygmunt Bauman mostra. Em uma linguagem mais prática é graças a esta característica que movimentos sexuais, por exemplo, __________________________
1 MORAES, Vinícius de. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Aguilar, 1974, p. 265.
se mostram eficazes. Se antes o modelo monogâmico heterossexual “machocêntrico” era a regra e a ciência pôs as demais realidades sexuais com um discurso de doença procurando estudá-las e registrando o que antes os padres apenas escutavam nos confessionários 1, agora a mulher conquista o mercado de trabalho, e o gay vai às ruas para protestar por seus direitos.
Este movimento centrífugo aos paradigmas modernos trouxe também um momento de ceticismo entre os homens contemporâneos, se antes Marx trazia o paraíso do comunismo e depois dele vários indivíduos seguiram suas idéias, o homem contemporâneo parece não se seduzir por estas utopias teleológicas. O movimento político perde forca, e o homem tem sua atenção voltada a questões do cotidiano. “A rigidez da ordem é o artefato e o sedimento da liberdade dos agentes humanos”2, então se antes o poder sólido estava à mostra, hoje o desenvolvimento tecnológico permitiu a ele se “liquefazer” a ponto de não se identificar quem realmente detém o poder.
“Ao contrário do que se afirma [...] a humanidade não evoluiu para algo melhor. O progresso não passa de uma idéia moderna, ou seja, uma idéia falsa”3, em 1888 Nietzsche já ataca o projeto moderno, é preciso para ele que o homem ocidental retome o sentido dionisíaco e suplante o extremismo apolíneo para que se liberte a vida. Denuncia que os fracos vivem, e propõe um novo homem, um homem que já existiu não como regra, mas como exceção.
Bauman expõe bem a questão da individualização dos problemas sociais, uma vez que “as condições de vida em questão levam os homens e mulheres a buscar exemplos e não líderes”4. Viver não é mais um problema social, mas individual. É a conseqüência e legado moderno ao homem, ele submete o indivíduo em uma massa de consumidores, que consegue absorver vários costumes e padrões.
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1Isto é bem demonstrado por Michel de Foucault no seu livro História da Sexualidade I: Os cuidados de si.
2BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 11.
3NIETZSCHE, Friedrich. O anticristo. São Paulo: Martin Claret, 2004, p. 40.
4BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, p. 85.
Entre a modernidade e a pós-modernidade existe também uma diferença substancial na concepção de tempo. O presente “sólido” perde a seu direito de existir, pois ele é uma antecipação do futuro, e o passado é o lugar da não realização; no momento contemporâneo a falta de sentido filosófico empurra o homem ao presente, pois o passado é visto com sem uma relação tão lógica, e o futuro é incerteza. A própria mídia constantemente cumpre o papel de dispersar a atenção do homem, pois a todo o momento surgem notícias as mais diversas. O indivíduo aqui recebe maciços fragmentos de informação, até mesmo porque a realidade se tornou algo tão complexo, e os meios de comunicação ditam padrões estéticos.
O que Madonna e uma banda de brega têm em comum? O simples fato de serem produtos massificados e que exploram sua sensualidade, de certa forma pregam uma liberdade, porém extrapolam estas pretensões e ditam regras, padrões de comportamento e porque não de moda? Agora o simulacro se liberta do referente, a Madonna “massificada” é mais real que a mulher-indivíduo. A cultura pop esta inserida dentro de uma indústria forte, e que quer impor seus produtos aos indivíduos em escala mundial.
Foucault escreveu que o poder panóptico foi uma realização formidável, uma vez que a introjeção do “olho do poder” permitiu ao mesmo dispensar os espetáculos de carnificina dos suplícios que eram caros, otimizando os seus efeitos. Mas uma vez que este poder era identificado, permitia uma maior mobilização das massas, o que não ocorre contemporaneamente. O homem está preso ao ambiente citado acima, um ambiente que não tem um discurso universal, mas fragmentado e que massageia o ego do indivíduo com prazer que pode ser sexual ou consumista. É mais fácil se discutir sobre a descoberta de um outro planeta em outra galáxia que uma forma de mudar o mundo ou ainda de se acabar com a fome no planeta.
A própria família incorpora outros valores, a partir do momento em que a sociedade se liberta de padrões anteriores. Se antes o casamento era a união de duas metades, agora é o encontro de dois inteiros, isto quando ele ocorre, pois diferentemente dos casamentos arranjados no Brasil colônia quando as meninas eram muito novas, agora elas têm o marido como uma opção e não como uma obrigação à qual não se pode fugir. É crescente o número de mulheres que preferem viver a sós. Inclusive a questão da maternidade não requer necessariamente um homem, desta forma o real – homem – não é mais necessário, uma vez que a mulher pode ir a um banco de esperma e “comprar” seu filho.
CONTINUA